Os diários de Odilon



                                  Capítulo I


A vida não passa de uma oportunidade de encontros!    — Victor Hugo —


  


 […] Onde estavam nossas cabeças quando aceitamos embarcar naquela viagem? Quem em sã consciência empregaria como marinheiros três estudantes de Belas artes? Nunca saberíamos quem enfeitiçou quem. O fato era que agora já nos encontrávamos a centenas de milhas da costa mediterrânea, dois ou três kilos mais magros, deslumbrados pela imponência do mar e as excentricidades da tripulação. Nâo nos considerávamos burgueses, nem tâo pouco Hippies ou Bag packers. Sabiamos viver, pronto! Desde que nos fizemos amigos em Madri que não nos desgrudamos mais. Tecemos nossos planos, examinamos mapas, consideramos meios de transporte, bagagem, períodos, qual a melhor e mais leve barraca que coubesse bem nós três, quais cidades e lugarejos explorar, em qual transporte.  Decidimos vender alguns pertences pessoais, dar aulas particulares, trabalhar em bares, juntando assim o máximo possível para a grande viagem. E assim foi. Com o final do semestre e a chegada do verão,  transportando somente o básico, muito básico, em nossas bicicletas, tomamos um trem até Barcelona e de lá fomos nos movendo sentido ao norte através de diversas pequenas cidades costeiras Espanholas, protagonizando nossas vidas, inspirados por relatos de viagens, Rimbaud, Jack Kerouak, haxixe, vinhos, imprevisibilidades, encontros... O verão de 1998 corria feito um filme, um não, vários e de diferente gêneros. As vezes nos vamos em Casa Blanca, outras em Bonie e Cleyde, Laurence da Arabia, e em muitos filmes da Nouvelle Vague. Já havíamos percorrido quase 400 km desde da nossa partida, enfrentado vários gostosos perrengues, dores musculares, fome, sede, surpresa junto à uma centenas de fabulosas estórias, cenários e personagens incríveis, os quais felizmente temos dezenas deles registrados em nossas anotações. A lei era quase sempre seguir nossos instintos permitindo-nos ser flexíveis e expontâneos. Quanto ao tempo: ainda nos restavam 36 dias e muita estrada até Tarifa. Aquela última semana de agosto havia sido intensa, estávamos cansados, um pouco desanimados pelo pouco dinheiro que nos restava, de enfrentarmos as muitas estradas íngremes através das montanhas de lugares como Cabo de Gata Níjar, onde fomos dopados pela geografia e pela melancólica impressão de que jamais seriamos os mesmo após aquela viagem. Havíamos acampado em tantas praias incríveis, atravessado tantos parques estaduais, vilarejos, imensas plantações de laranjas e tangerinas, enfrentado chuvas, ventos, sol de rachar, paisagens idílicas, noites arábicas, e ainda nos restava muito caminho até a região da Andaluzia. O plano era ir costeando até a onde desse, estávamos fascinados com a ideia de conhecermos o castelo de Alhambra. E assim foi, que, após algumas desavenças, reconciliações, vinhos baratos, jamon crudo, e muita, muitas ladeiras beirando penhascos frente ao azulzíssimos mediterrâneo, lá estávamos nós embarcando nossas bikes na rodoviária de Motril. Seria necessário um capítulo à parte para descrever o nosso encontro com Granada, Córdoba, Sevilha e Ronda. (Para você que teve a disposição de nos acompanhar até aqui, mê dê mais dois dias para lhe contar o que pintamos por lá).  Só sei que duas semanas depois nos encontrávamos a bordo de um navio cargueiro, vivenciando aquela que nos parecia ser a mais louca e arriscada das vivências a nós possibilitada.

Acho que será necessário expandir melhor esse capitulo.


                                 
                                    Capítulo 2


 Naquela noite não dormimos, o mar chacoalhava-nos feito folhas, ainda não sabíamos mas algo de errado estava acontecendo aos motores daquele bendito Navio, era possível perceber o nervosismo da tripulação e a nossa insignificância em relação às ondas. Tentei manter a calma escutando atento as instruções do capitão Melchor, nenhuma parte da minha camisa servia para limpar a sujeira acumulada nas lentes de meus já cansados óculos de grau de aros de metal, presentes de minha mãe, acrescentando um toque impressionista à composição daquela pintura. Devido ao peso de um molho de chaves que trazia no bolso esquerdo, minha calça não parava na cintura, fazendo-me correr através do navio quase todo o tempo com uma mão segurando-a e a outra apertando contra o peito um desbotado manual de bordo. Fora isso, meu joelho esquerdo já não suportava mais esbarrar acidentalmente em algo e já começava a apresentar as dores que me acompanhariam por muitos anos. Ao alcançar a maldita sala de máquinas, me escorei numa das pesadíssimas portas metálicas e por uns segundo fiquei ali, parado em frente aquele monte de relógios. De súbito fui tomado por uma risada involuntária que parecia estar presa em meu estômago, em minha consciência. Minhas surradas botas já não tocavam o ferro, já não era ar o que eu respirava. Lá fora a tempestade seguia nos castigando. Busquei me concentrar, alguma coisa das instruções eu ainda lembrava, estivemos ali duas ou três vezes acompanhados do capitão, e outras mais com dois dos tripulantes, um deles responsável pela suspeitíssima comida servida à bordo e o outro pela manutenção dos rádios de comunicação. Seriam eles realmente marinheiros? Folheei o manual, os dedos não me ajudavam, conferi a pressão e a temperatura dos motores, logo em seguida tomei coragem e desliguei os sistemas de escoamento, como o Capitão Melchor havia me instruído. Eram tantas luzes amarelas, vermelhas, verdes, poderia facilmente cometer um erro. Nunca fui bom com manuais, olhava para o que tinha entre minhas mãos e tentava inutilmente encontrar a página 236. Minha imaginação fértil logo me levou a suspeitar que alguém o havia rasgado diversas páginas. E agora: qual dos três botões imprimiria o relatório? Apertei o da esquerda, como havia sido instruído e nada aconteceu. Alguns segundos depois, o que para mi pareceu uma eternidade, gritei feito louco ao perceber um pedaço de papel começar ser cuspido do monitor. Fui surpreendido por um monte de informações indecifráveis: 

Tursday, 23/ 10: 19:35 pm; CAVITATION 134 DEGREES; 23:1 AUXILIARY ENGINE COMPRESSION A C; 32:1 NO B. TDSI 1245 legt. REM OF TVSi OF CARD M376. 20 00S 175 00W

Algo devia estar dando errado, tudo estava dando errado! Saí disparado corredores e escadas acima em busca do capitão Melchor, aquele louco de merda deveria decifrar aquelas informações. Não fazem dez dias havíamos concordado que, pelas manhãs, Eu, Ofelia e Erasmos trabalharíamos na cozinha,  às tardes o ajudaríamos com as traduções das guias alfândegárias e à noite dividiríamos, com dois outros tripulantes, a conferência dos relógios, e assim aprenderemos o necessário para fazer parte da tripulação. — “ Its so easy, very easy. Just look the book, numbers, book, numbers, yelow, white, blue. Alls good, very easy. Not work good, come to me, fast”. Assim fomos convencidos por ele a vigiar aqueles malditos relógios, que juntos, controlavam as condições de pressão hidráulica e a temperatura dos quatro motores gigantes que moviam aquela besta de bandeira Filipina sobre os mares. O mar agitava o mistério e junto com o vento soprava a chuva em todas as direções. Portas se abriam e fechavam, marinheiros passavam correndo, outros se equilibravam subindo as escadas até o convés superior, ou descendo. Ofélia e Erasmos deviam estar a minha procura, havíamos combinado com Melchor de trabalharmos os três sempre juntos, e assim havia sido desde o embarque há 16 dias no porto de Gibraltar. “Era a nossa primeira viagem num cargueiro e já nos encontrávamos metidos numa tempestade no meio das águas do pacífico!” Eu não sabia se ria ou se chorava. Subi as escadas o mais rápido que pude, corri pelos corredores internos em busca daquele bendito capitão, o encontrei vociferando ao mesmo tempo em dois rádios. Nos observamos por uns segundos, me aproximei e gritei ao seu ouvido entregando lhe o relatório : -- Look, is that ok, or not --.  Ele me entregou um dos rádios e pegou o relatório de minhas mãos, baixou o óculos escuro e levou-o até uma lâmpada conferindo como quem olha um negativo, me deixando suspendo no ar pela sua reação, que quase sempre era a mesma para tudo, um misto de gravidade e cinismo. Logo em seguida ele tomou de volta o rádio de minhas mãos e começou a passar instruções para alguém que, do outro lado, o respondia aos gritos. 

Erasmos e Ofelia chegaram acompanhados de dois outros marinheiros, ninguém parecia saber realmente o que estava acontecendo. Com um olhar grave, o Capitão Melchor gesticulou “pedindo” que nos juntássemos aos outros tripulantes no refeitório e que aguardássemos lá.  

— Como? Ele não vai nos contar que merda está acontecendo? Replicou Erasmo. Tanto Ele quanto Eu e Ofelia, desde do início de nossa partida de Madri, em junho daquele ano, estávamos, cada um à sua maneira, colecionando em nossos diários, recortes da nossa epopéia através da Espanha. Vivíamos intensamente cada paisagem, estórias, lugares, encontros, nos movimentando de bicicletas, caronas, e longas caminhadas; e assim íamos, recolhendo relatos, fortalecendo nossas habilidades ficcionais, alimentando narrativas, celebrando nossa doce insanidade. Embriagados pelas circunstâncias havíamos prometido finalizar até o final da viagem três livros diferentes, os quais seriam enviados, assim que colocássemos os pés em terra, para editoras de São Paulo, Madri e Paris.  Que loucos de merda, nunca havíamos nos divertido tanto. 

 
                             

                                                               Capítulo II


Estávamos todos encharcados, a última refeição havia sido umas oito horas atrás. “Que merda de situação nos metemos!”. — Gritou Ofelia. A culpa era minha, eu havia convencido os dois que deveríamos embarcar juntos naquela aventura, foi eu quem, num bar do cais do casco Viejo de Gibraltar, insistiu que me ajudassem no plano de conquistar a amizade e a confiança de um tal de Capitão Melchor. Foi minha também a ideia de presentear-lo com uma tela que Erasmo havia feito dele conversando, na janela do casarão do porto, com uma espanhola de cabelos assanhados tão negros quanto seus olhos. Melchor havia gostado muito de nós a ponto de comprar duas mais das nossas telas, se apaixonando, se é que aquele ser poderia se apaixonar por algo, especialmente por uma a qual Ofelia retratava um travestis que havíamos conhecido semanas atrás nas ruas de Alicante. O explicamos que, além de loucos, éramos estudantes e que havíamos ouvido pelo barman que ele era o capitão de um navio cargueiro de estava ancorado ancorado naquela cidade e queríamos muito poder fazer parte se sua tripulação e vivenciar “toda aquela experiência de viajar num cargueiro através do oceano”. Apesar de ser noite, ele nunca tirava os óculos escuros. Sorria e pedía mais cervejas, retirava um cigarro do maço no bolso da camisa azul bufante de poliéster e acendia enquanto seguia com suas alucinadas narrativas, crente que entendíamos tudo que seu inglês nos proporcionava, defendo, entre mil outras coisas, conhecer mais de cem portos do mundo, de ter aos vinte anos assistido uma briga de Mike Tisson num cais do porto em Nova York, e de possuir em sua cabine uma foto junto com Brigitt Bardot e Serge Gainsbourg. Todos ali naquele bar estavam envolvidos em alguma ação, afogados numa espessa nuvem produzida pelos muitos cigarros fumados, conversando ebriamente. Ofelia dançava e cantava com um grupo de mulheres uma música francesa tocada ao piano pelo que parecia ser a Dona do estabelecimento.  Estávamos todos numa loucura terrível! Melchor nos olhava e sorria, a espanhola que estava em nossa mesa nâo tirava os olhos de mim e de Erasmo, suas mãos escorriam feitos tentáculos por baixo da mesa. “ You guys are very nice. Crazy kids, good people! Can you survive one months traveling in the ocean?” — Melchor, nos perguntava.
— Yes, Of course!  
— This is not for you kids. Can you?  Ele nos desafiava sorrindo. Nós insistimos tanto que, lá pelas tantas, ele sentou mais uma vez ao nosso lado, agora no balcão, e num inglês embriagado nos pediu que fôssemos buscar nossas mochilas que dali uma hora iriamos todos juntos para o navio e que pela manha zarparíamos em direção ao porto de Tókio.  Sería ele realmente o capitão de um navio cargueiro como ele estava nos dizendo e aqueles alí eram seus marinheiros? Estávamos dispostos a descobrir. Não pensamos três vezes para aceitar o desafio, e, ao nos ver sair os três correndo em busca de nossas mochilas na pensão, ele pediu que nos aproximássemos mais uma vez para que pudesse, ao que tudo parecia, nos fazer uma última pergunta:
— Du you have papels?  
— Yes, Yes, we have papels, Visa, its all right.  
— Ok. Look: is One month inside the ship, you guys must help, she also must help, everyone work in my ship. Ok!
 — yes, we want! We agree.  Respondemos.  E assim foi que corremos para a pensão, deixamos 18 euros e um bilhete escrito à três mãos em cima da mesinha em nosso quarto endereçado a empática argelina dona do estabelecimento, voando em seguida com nossas bicicletas de volta para o bar. Antes do dia amanhecer estávamos embarcando naquela que nos parecia ser uma grande aventura pra ser vivida e registrada. 
  


 
                                                                        Capítulo III


Minutos após ao que pareceu ser uma explosão, escutamos um barulho metálico assustador vindo dos porões logo abaixo de nós. Era como se algo estivesse sendo retorcido,  entramos em pânico com o som do alarme, que junto com as luzes amarelas e vermelhas em toda parte, antecipavam o que estava por vir. Erasmos concordou em buscar Ofelia e nossas mochilas, combinamos que eu o aguardaria ali, próximo às escadas para o convés superior direito, para o caso dela porventura passar por ali com seu marinheiro. Isso mesmo: Ofélia estava já há alguns dias envolvida com Dolapo, um senegalês bom de conversa, ligeiro e leitor de Aimé Cesaire. Alguns marinheiros passavam gritando instruções, apontando direções, falando pelo rádio. A tripulação era composta ao todo por nove malaios, quatorze filipinos, Dolapo e seu amigo congolês, Jafari. Os dois nos haviam contado dezenas de histórias sobre as tentativa de Travessias, algumas delas fracassadas, realizadas pelos seus conterrâneos, entre o litoral Marroquino e o Espanhol, dos muitos dias passados perdidos no mar, dentro de botes infláveis, levados pelas correntes.  Tomados pela narrativa, escutávamos impotentes sobre as dificuldades enfrentadas para se conquistar O sonho, das ações truculenta das agências de segurança marítima, dos muitos amigos que perderam para o mar, da chegada a noite nas praias da Espanha, de toda discriminação sofrida na Europa, das deportações, das dívidas em euro feitas com os atravessadores e da permanente saudade dos familiares. 

                            


                                                                     Capítulo IV


                            O mar não tem cabelo.  // memórias.


    Minha mãe sempre nos repetia essa expressão quando íamos pescar nos arpoadores de Búzios, Rio de janeiro. Ela e sua inseparável amiga, quando crianças, costumavam passar horas nadando com uma entre as praias paradisíacas da cidade, que, até 1995, ainda pertencia à cidade de Cabo Frio. Lembro vagamente de uma tarde, quando ainda crianças, juntos os três em seu quarto,  quando ela nos pediu que fôssemos buscar uma cadeira na cozinha, que gostaria de procurar algo encima do guarda-roupa para nos mostrar. Passamos aquela tarde todinha espalhados em sua cama vendo uma por uma as centenas de fotos e álbuns que ela mantinha guardadas em duas caixa de papelão. Era como se o tempo ganhasse profundidade e laterais, tornando-se possível alcançá-lo, cheira-lo, escuta-lo. A maioria das fotos estavam em tons de sépia, levava alguma descrição nos versos, tinham bordas aparadas e traziam as datas impressas. Além da fotos existiam também dezenas de pequenos monólocos, onde encostávamos o olho para melhor viver os flagrantes preservados através do tempo, congelados naqueles fragmentos. Foi nessa tarde que,  depois de nos responder um milhão de perguntas, nos contou sobre a menina de pele negra e magricela que aparecia com ela em algumas das fotos. — “ Se chamava Deinha, éramos inseparáveis e dividimos uma época muito feliz de nossas vidas”. Seu semblante foi ganhando outro tom e de repente ela nos deixou e foi para o banheiro, onde a percebemos chorando com uma das fotos em suas mãos. Já a havíamos visto chorando antes. Lembro que Eu e Luisa a abraçamos calados, complacentes. Esse momento ficou cristalizados em nossas memórias. Depois de um tempo alí, no banheiro,  voltamos para a cama e aos pouco ela foi nos contando um pouco mais sobre a foto que estava em suas mãos.  Nos contou primeiro sobre algumas das muitas pequenas aventuras que costumavam fazer juntas, das tardes passadas no Quilombo da Rasa, da coleção de conchas e búzios, das vezes que nadaram juntas com uma família de baleias jubartes, da amizade com golfinhos e tartarugas.  Tudo nos parecia tão mágico, entramos ali também, juntos com elas, nadando nos corais, mergulhando livres. Naquela tarde ela não nos contaria toda a história. Escutamos o barulho da caminhonete chegando, corremos para ajudar abrir o portão para nosso pai. Alguns dias depois depois ela nos contaria, segurando o choro, que havia perdido sua melhor amiga, Deinha, para o mar, numa tarde nublada na qual ambas haviam decidido ir nadando até a “Ilha Feia”, distante quase um quilômetro da praia de João Fernandes, em Búzios. Nunca mais a escutaríamos tocar naquele assunto.

Foi Salomão, O pescador, alguns anos depois, quem nos contou melhor a respeito daquela historia e de outras mais envolvendo nossos pais quando crianças. Ele nos contou que às vezes passava de barco por nossa mãe, Deinha e nosso pai, nadando, mas que nunca aceitavam subir a bordo. “Eram  rabos de peixe, em vez das canoas e barcos, eles gostavam mesmo era de nadar. Iam devagarinho, conversando, boiando, costeando as praias. Aprenderam a conhecer as correntes, haviam nascido assim, metade peixe, metade gente”.  Ele nos contou também que era comum as crianças irem de barco até a ilha, “eu também fui muitas vezes em minha época, pesquei muito por lá com meus meninos”. Depois de muito perguntar ele nos contou, enternecido, que “ Rosa, Deinha e nosso pai inventaram de dormir uma noite lá na ilha, aqueles três viviam no mundo deles, e que na volta foram surpreendidas por uma corrente muito forte, e foi assim que Deinha desapareceu e nunca encontram o corpo. Foi muito triste para todos, o pessoal da Rasa passou um tempão ressentido com seus pais, com seus avós, comigo, com seus tios, que lástima:.  

Vinte e dois anos haviam se passado e ainda às vezes a pegávamos chorando enquanto relia seu antigo diário. Além dos muitos quadros que pintava metida em seu atelier, minha mãe sabia como ninguém imitar o canto de vários pássaros, tocar violão, subir em árvores, fazer pequenos reparos na casa, na cerca... Aprendemos a nadar muito cedo, o Velho fez questão de ensinar nós três a lidar com as correntes, ondas, remos, mergulho, um pouco de motores, navegação, cozinha, marcenaria. Brincávamos juntos com os filhos dos muitos pescadores, tanto durante nossa infância em Barra Grande (BA) quanto a adolescência em Búzios, onde aprendemos a navegar com um pequeno barco que o Velho trocou por uma caminhonete que herdou de nossa avó, Jeane. Tudo aquilo seguia muito vivo em nós, sentíamos muito falta dos dois […].


                            

                                                                     Capítulo V


    Erasmos e Ofelia chegaram com as mochilas, encharcados,  com um semblante indecifrável, principalmente Erasmos, que estava sempre repetindo para todos sua preferência  pelas montanhas. 

— Que histórico seria os nossos amigos em Madri, escutarem que fomos comidos por peixes no meio do pacífico. Juro que se sobrevivermos os três a merda toda, eu mesmo, com minhas próprias mãos, irei matar vocês dois.  Vamos, vamos, decidam logo por favor o que temos de fazer!  Disse Ofelia.

Quem poderia imaginar que estaríamos os três nesse exato momento enfrentando uma tormenta dentro de um navio de cargas próximo a naufragar no meio do pacífico? Dolapo nos gritava do convés superior, em francês, nos pedindo que subíssemos as escadas e que entrássemos em um dos botes de socorro. Resistíamos,  prestes a explodir em lágrimas, desespero, raiva, impotência. Estávamos há quatro meses divertindo-nos de forma hedônica, nada se comparava aquela nova e incontrolável situação, descendo através de cordas,  em botes de emergência, para um mar mexido como nunca havíamos visto antes. Alguns dos botes já se encontravam na água, sinalizadores vermelhos escorriam no céu. Apos Ofelia ser içadas fomos instruído a nos juntar e descer em um dos barcos da proa. Dolapo, Erasmos e três outros tripulantes, entraram em um, enquanto Eu e Jafari seguimos em busca de um outro onde coubéssemos. Melchor ao nos ver gritou para que nos apressássemos. E assim foi que pulamos naquele bote carregado com suprimentos, sendo alguns segundos depois içados beirando o casco, vermelho, imortal, daquele velho navio cargueiro de bandeira grega, batizado de “Aetos”.  Éramos vinte e oito pessoas distribuídos em nove embarcações, carregadas com suprimentos e alguns poucos pertences, essa era a regra. Haveríamos de sobreviver? Seríamos resgatados? Quanto tempo até algum navio vim em nosso resgate? Do barco onde me encontrava não conseguia ver o de Ofelia, deveria gritar, precisava gritar! “Onde vocês estão!!?”.  Gritava-os com todo o meu corpo. Que surreal tudo aquilo. Era como num desses filmes japoneses em preto e branco, dramático. O navio já se encontrava mais da metade embaixo d’água. Inacreditável! Nâo fazem dois dias, a lua havia nascido cheia, avermelhada como nunca, imponente no horizonte; bebemos, fizemos planos de nos hospedar em algum hotel, ligar para nossos familiares, corrigir imprimir e enviar nossos textos, nos embriagar pelas ruas de Tokio e colocar em prática o nosso plano de retorno para a Espanha. Naquelas duas semanas em que estivemos embarcados havíamos nos virado em vários tipos de serviços, desde auxiliares do capitão Melchor, dos cozinheiros kadir e Osmar e dos fiscais de convés. Chegamos até a escavar, para o gracejo geral, minério de ferro dos porões vazios. À noite ouvíamos música, assistíamos algum jornal, bebíamos alguma coisa, escutávamos as muitas histórias dos marinheiros, principalmente de Dolapo e Jafari. Segundo um noticiário, anualmente, mais de trezentos mil imigrantes africanos arriscam suas vidas tentando alcançar a Europa através do mediterrâneo, destes, mais de cinco mil morrem durante a empreitada. A maioria deles vem de regiões como o médio oriente, norte da Africa, e África Subsaariana, especialmente Síria e Eritréia.  Vivíamos em mundos tão diferentes. Tanto Ofélia, quanto Erasmo e Eu nos aventurávamos por prazer, não havíamos assistido conflitos armado, sido racialmente discriminados, perdido tragicamente algum familiar ou amigo.  Aqueles relatos nos tatuavam os corações.. 

 


                                                          Capítulo VI        //Adendo//


    Diferente de mim, que possuía um visto de estudante e era bolsista do London royal college of art, Erasmos e Ofelia haviam nascido e crescido em cidades do litoral norte da Espanha (pra ser mais exato, San Sebastian e Dênia) e haviam conhecido-se no curso de Belas artes da universidade de Madri, onde, por conta de duma paixão fulminante, estive algumas vezes naquele verão de 2016. Não demoraria muito aquela mesma paixão me trocaria por um Casanova venezuelano bom de conversa e excelente pianista. Foi ele quem, quando amigos, numa rua boêmia de Madri, me apresentou Erasmos e Ofelia, para logo em seguida aproveitar minha distração para, com seus olhos verdes feito o mar caribenho, enfeitiçar minha madrilenha a partirem juntos em seu saveiro para Menorca. Perdi minha musa mas ganhei dois amigos incríveis. Ríamos sempre um montão de toda aquela história e com tudo mais. Daquele dia em diante nos tornaríamos inseparáveis, reviramos uma centena de endereços boêmios de Madri, Barcelona, fomos detidos numa manifestação de estudantes em Granada, nadamos nas águas cristalinas de Formenteira. No final da primavera do ano seguinte, fizemos como havíamos combinado: Juntamos o pouco de dinheiro que havíamos poupado,  amarramos nossas mochilas em nossas bicicletas e fomos de trem até Barcelona, de onde, uma semanas depois, demos início à nossa epopeia através do litoral espanhol. A viagem estava indo muito bem, tudo estava fluindo,  nosso único grande erro foi ter entrado naquele maldito navio de carga, de ter fantasiado chegar em Tokyo. Já estávamos há dois dias em Gibraltar, dormindo num quarto alugado na pensão de uma matrona Argelina, que com seus enormes olhos negros, tentava nos explicar seu ponto de vista sobre os conflitos entre os árabes, muçulmanos e católicos. Durante a noite vagávamos pelo casco antigo da cidade, pelos becos e vielas da zona portuária, em busca de algo que nos surpreendesse pela sua originalidade. “Estivemos juntos por tantos lugares fantásticos”. Entre o final de junho e agosto, com bicicletas emprestadas, mochilas, uma minúscula barraca, e com uma ideia de escrever um livro cada um com nossos relatos, costeamos quase todo o mediterrâneo espanhol. Foi incrível, nos atrevíamos em tudo, dormíamos onde desse, na praia, albergues da prefeitura, parques da cidade. A festa acontecia aonde estávamos e homéricas quando vendíamos alguns das nossas telas, a maioria delas feitas com cores primarias e carvão. Flertávamos alucinados com o neoplasticismo de Theo Van Doesburg e o suprematismo de Malevich e Maiakovski. Reproduzíamos à nossa maneira a paisagem soturna, ébrios marinheiros, travestis, prostitutas e gastávamos tudo o que ganhávamos em vinhos, cigarros e outras drogas […].


(Continua)

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