O outro lado da Margem
O sol da tarde de um domingo qualquer de fevereiro ainda brilhava forte sobre os tórax nús dos três filhos mais velhos de Noel e Ilza. Um atrás do outro caminhavam enquanto discordavam sobre as razões e o prejuízo que o pai havia tido dois dias atrás com a derrota de um dos seus galos numa briga organizada na Rinha de Galego da carne, quando, ao descerem o ladeirâo, alí onde geralmente os milicos realizam suas blitz, deram de cara com um outro sorridente grupo de meninos e meninas do Barro vermelho voltando eles também de algum pequeno trampo, pescaria, rolé. E assim viviam, ora de canoa pescando ou mergulhando nos rios do Rodão ou do Badaró, ora enfiados até a cintura no manguezal, ora pegando lambreta e moapen na arriscada Coroa; ora pegando carrego ou vendendo tempeiro verde na feira do Malhado. Estavam sempre metidos em alguma, fugindo dos pais, em busca de algo mais divertido para fazer, de algum bico pra levantar um troco, de alguma troca que pudessem levar vantagem. Quase todos meninos do bairro nadavam bem, eram bons de venda, de briga, bola, gude ou era apaixonado por alguma das seis filhas de Rita do bar. Ali todos haviam sido obrigados a abandonar a escola primária. No mais, ostentavam alguma cicatriz ou cabelos descoloridos, carregavam a geometria dos 13 anos, andavam descalços, e vestiam quase sempre somente a mesma bermuda ou camisa. Fiz questão de escrever “quase todos” porquê a mulecada vivia tirando o coro de Mazinho, por não saber nadar, de Binho Seco, por ser ruim de bola, e Galego, por ser galego e não ter aprendido dar pulo de gato sem as mãos no plano. Tempos difíceis, alcoolismo, cascudos, corpos que exibiam na ginga as exigências em brigas e resenhas provocadas pelas disputas com Pipas, habilidades nos mangues, nos rios, jogos de gude, piâo, capoeira, brigas de galos, e mais recentemente, as "competições" de salto das pontes da cidade. Aquelas crianças eram terríveis e sabiam disso. Se exibiam equilibrando-se sobre as barras de proteção laterais, causando alvoroço no grupo e chamando a atenção de pedestres e motoristas. Além desse passatempo, as brigas no murro, e de hora marcada, eram bastante comuns. Aconteciam geralmente no campinho ou no pó de serra (atrás da serraria do finado Marreco), quase sempre após os "Babas"(bate-bola) em alguma das áreas neutras da comunidade. Tudo virava deboche. Como curtiam uns aos outros naquele bairro! Incrível, estavam sempre com os dentes de fora, fazendo piada, contando vantagem, retocando histórias.
(Continua?)



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