A culpa deve ser do sol - Poesia para pedras e pássaros.
Dias vividos sem pressa, longe de todos, longe do cais, das trilhas conhecidas. Mochila nas costas, nossas pegadas na areia.
Gastos pelo tempo, aqui e ali, pedaços de corda, galhos retorcidos, plásticos, jangadas, Eu e você. Somos bons nisso, em escapar, em ampliar as possibilidades.
Um Urutau nos observa enquanto construimos uma oca.
Como o olhar pelo o horizonte, o vento é atraído pelas palhas dos coqueiros. A maré avança e o sol incendeia o poente.
Durante horas recolhemos e utilizamos dezenas de galhos e palhas secas, montamos uma base, trocamos suas posições, refizemos a entrada. Brincamos durante todo processo, inventávamos ambientes, saíamos em busca dos coqueiros mais baixos, corríamos feito crianças, mergulhávamos livres.
Fomos tomados pela alegria de ver nossa oca finalizada.
Separamos madeira seca para a fogueira. A temperatura estava perfeita.
Na cidade já era noite. Conversávamos e riamos de tudo; levei horas para encontrar o isqueiro. Finalmente o Fogo nos hipnotiza, que maravilha.
Comemos frutas e biscoitos, amanhã planejamos pescar.
Estendemos um lençol sobre a areia, em frente a nossa oca, e juntos deitamos para observar melhor as estrelas enquanto fumávamos.
Incrível como se viam nítidas as estrelas. Para nosso regalo, localizávamos uma e outra que pareciam viajar lentamente numa órbita cruzando o céu. “Quem estará se movendo: nosso planeta ou elas? Nos perguntávamos.
[…]
As pálpebras pesaram, podia ainda sere oito ou meia noite. Não importava. Estávamos regidos por leis ancestrais do corpo, do tempo.
Apagamos a fogueira, recolhemos nossas coisas e experimentamos contentes deitar em nosso ninho. Havíamos trazido um tecido grande, grosso, de algodão, todo estampado com bananas maduras, que levávamos sempre quando íamos a praia, todos o adoravam, nós o amávamos. Naquela noite quase não utilizamos a lanterna, incrível como a luz das estrelas projetavam algumas sombras das palhas sobre nossas mochilas, sobre nós.
Aos pouco nossos corpos vão encontrando uma posição mais confortável, a primeira noite é sempre mais difícil. Com as mochila desvio a brisa que entrava através de uma fresta próxima a meu rosto. Improviso um travesseiro. Você recosta sua cabeça em meu peito, te aperto gostoso contra mim.
Sonhar para dormir, corpo sobre a areia ainda morna do dia.
De dentro da oca, deitados, avistamos entre as palhas secas uma estrela cruzando o céu. Levados por ela, embalados pelo marulho das ondas e pelo atrito da brisa contra nossa oca, somos engolidos pela noite serena.
Dentro de um sonho sou despertado pelo canto de um pássaro preto. Através de uma fresta busco a alvorada. Me levanto devagarzinho para não te despertar, que sensação gostosa estar assim, nessa praia, nesse lugar.
Os primeiros passos na areia, o orvalho na restinga, a brisa fresca que vem do mar, o sol por nascer. Depois de fazer xixi caminho um pouco até onde parece ser os restos de um antigo barco de pesca.
Fico por ali um tempo analisando, tentando imaginar as razões do naufrágio, havia deixado a câmera na mochila. Olho em volta e percebo, próximo aos coqueiros, o que parecia ser uma pequena casa abandonada. Caminho com cuidado através da vegetação rasteira, descalço, evitando alguns espinhos, encontro uma pequena trilha e a sigo.
A casa parecia estar há muito desabitada, lhe falta as janelas laterais, e a porta da frente estava meio aberta. Alguém, provavelmente crianças, haviam escrito seus nomes e desenhado alguns pássaros e coqueiros, tanto nas paredes externa como internas. Não havia nada além disso, e era muito, nenhum outro vestígio que contasse mais sobre quem viveu ali.
Do lado de dentro, através da janela, avisto nossa oca e no pano de fundo o sol rompendo o horizonte.
Caminho até o fundo da casa e um pouco a frente, entre as árvores, avisto umas palhas de bananeira. Minha típica curiosidade me leva à uma pequena trilha na esperança de encontrar algumas bananas maduras. Imagine voltar com bananas fresquinhas! hummm... Que bela surpresa eu te faria.
Fui caminhando, caminhando, já não pensava em você, já não pensava em mim, só caminhava por entre as árvores, que iam ficando cada vez maiores. A trilha exercia uma atração em mim, quanto mais eu andava mais eu queria ir. E assim, uma eternidade depois, iria perceber, que havia me perdido.
Descalço, vestindo uma calça de linho azul escuro e uma camisa preta de algodão com mangas compridas, caminhava a passos certeiros, evitando raizes, poças de água. A umidade da mata ia ficando cada vez maior. Para meu espanto, percebo que acabo de passar três vezes pelo mesmo tronco espinhoso do cajá miúdo, pelo mesmo pé de seriguela, pelas folhas de cansanção que faziam coçar meu braço direito, pelas minhas pegadas debaixo da mesma elegante árvore de jenipapo. Como isso poderia estar acontecido? Me perguntava. Estou dando voltas, como num sonho, alucinado. E a casa abandonada? E as bananeiras, e a praia, onde estão? Agora, somente árvores enormes, canto de pássaros e pés de cacau.
Pés de cacau me confundem. Distante, não muito, escuto a voz do que parecia ser crianças. Paro ao lado de um pequeno córrego, olho, não vejo ninguém. Sigo pela esquerda, entre uns pés enormes de dendê. Tenho os pés pretos da terra arenosa.
Sob a sombra da mata fechada, entre umas pedras grandes cobertas de musgo, avisto um pequeno cercado camuflado de existência e um casebre sob o que parecia ser um gigantesco Pé de Pau ferro.
O cachorro é gentil e juntos nos aproximamos do lugar.
São gente da mata, dos mangues, dos rios. De uma pedra onde pescam, me observam.
Ali, ágora, estávamos.
Crianças e adultos de idades incertas.
A pele da cor do rio.
Pés e mãos toda vida descalços..
Poucas palavras. Não demonstram estar surpresos com a minha presença. Cabe a mim se aproximar e explicar o que estava passando. Passei pela lateral da casa, tudo parecia estar ali desde sempre, tinha a cor da terra, do limo, das árvores, das folhas que caem.
No quintal, sobre uma grande mesa de tábuas escura pelo tempo, uma bacia de alumínio, gasta, com alguns utensílios domésticos, todos também gastos. Próximo à porta da cozinha, sobre um fogão a lenha feito de pedras, negras como a parede pela fumaça, três panelas de barro. A luz entrava na casa por uma janela lateral que dava para o oiteiro. Meus olhos se perdem nas rachaduras da taipa, no chão batido, nas ferramentas gastas encostadas no canto, escurecidas todas pelos anos. Mais à frente, logo após um pequeno cercado, de um pé de goiaba, duas araras azuis enormes, soltas, me observavam com olhos fascinantes. Naquele lugar havia uma espécie de acordo entre os que ali habitavam, coexistiam. O cachorro que me acompanhava não latiu em momento algum, tão pouco balançou o rabo, possuia uma espécie de confiança. O mesmo se podia dizer das pessoas daquela família. Três crianças brincavam juntas na água, mergulhavam e sumiam aparecendo em lugares diferentes do rio, pareciam peixes. Uma delas, subiu numa árvore de mangue e me observou calada enquanto me aproximava por um flanco à direita de onde um homem de pele escura, descalço, vestindo calça social escura e uma camisa clara de botões, meio aberta, bastante gastos pelo uso, atacava com o machado um tronco de madeira. Parecia estar esculpindo algo.
Ele parou, afastou o suor da fronte com as costas das mãos, apoiou-se no machado e me observou, calado. Lhe conto que havia pego uma trilha perto da praia, que havia entrado e já haviam se passado horas caminhando perdido em círculos pela mata. Ele, para minha surpresa, começa a sorrir, e sua risada, grossa, sonora, ecoa entre as árvores, feito canto. Fiquei alí parado, meio estupefato, feito turista, observando desnorteado aquela figura forte feito um jequitibá, sorrindo de mim. Percebendo meu descompasso, pede para uma menina, feito prata brilhando molhada ao sol, que se aproximara sorrindo, que lhe fosse buscar algo na casa. Enquanto isso os outros dois seguem brincando na água, mas me espreitando. A menina vai, aos pulos, entra na casa e logo depois volta, tangendo as galinhas, e entrega para mim uma semente, parecia de jaca, mas não era, era mais achatada e dura.
O Homem me conta que aquela era uma semente de olho de boi e que com ela eu iria conseguir voltar para a praia. Tive dificuldade em compreender como que aquela semente poderia me ajudar, tão pouco tive coragem de fazer muita pergunta. Ele me disse que a mata me havia testado, que se eu havia chegado ate ele foi porque assim a mata quiz.
As outras duas crianças saem da água e me perguntam se era minha primeira vez. Os quatro me observam. Eles pareciam saber que algo me havia feito se perder mata. Conviviam com antigos mistérios, vivendo naquela casa, como as araras, o cachorro, saguis, e outros bichos mais. E a mãe daquelas crianças, onde estava?
Não demorou muito fui conduzido de volta a trilha pelas crianças, três galinhas e um arisco galo, ambos de penas da cor do universo.
O céu reaparece. Um Guaxe nos observa.
Caminhavam calados mas felizes, foram perdendo a timidez, depois de um tempo pararam e apontaram na direção de uns pés de banana. Ali estavam as benditas bananas, e, como eu havia imaginado, em um dos caixos haviam algumas maduras.
Agradeci as crianças, não havia nada que eu pudesse dar em troca da ajuda, gostaria muito poder lhes dar algo. Nem bem se despediram e se foram, o último deles foi o cachorro. Acima entre as copas das árvores, as araras.
Avisto a casa abandonada, passo pela lateral dela, lá na praia o sol parece estar na mesma posição de quando entrei na trilha. Na verdade o dia estava nascendo. Como assim? O dia estava nascendo? Eu tinha certeza que havia passado horas perdido dentro da mata, e agora esta, como assim o dia ainda está nascendo?
Fui em direção à nossa oca, com as mãos cheias de banana e numa duvida cruel sobre a veracidade de tudo que havia passado.
Irene seguia dormindo, pela posição do sol devia ser umas seis horas da manhã. Entro, deixo as bananas num canto e lhe acordo com um beijo.
Irene, naquela preguiça manhosa, cabelos longos desgrenhados, surpresa que eu havia encontrado bananas. Sorrindo, meio dormida ainda, saiu do ninho em busca de um lugar para fazer xixi, e eu atrás lhe contando que havia me perdido e tal, que três crianças me haviam trazido de volta. Ela às vezes não acreditava muito bem nas minhas histórias.
O mais curioso foi que no dia seguinte acordei achando que tudo não havia passado de um sonho.
Passamos quatro noites ali naquela praia, foi lindo, no último dia percebemos nuvens de chuva no horizonte, o que nos fez seguir viagem até a vila.
*****
Sobre o método Naturar, meu avô recomendava:
* Caminhadas descalços por bosques ou florestas uma vez por semana
* Vinte minutos diários do canto de um Guriatã
* Atrever-se a recolher lixo alheio
* Assistir tarrafas sendo jogadas ao entardecer
* Chupar mangas espada derrubadas pelo arremesso de pedras e pedaços de pau
* Observar a diferença entre os cantos da sabiá coca e a bico de osso
Uma menina da quadra cinco era dona de um sinal preto no rosto que a deixava ainda mais linda.
Ele sempre dizia também que alimentar assanhaços provocava amnésia.
*****
Quando criança acreditava que não deveria tentar contar as estrelas. Verrugas nasceriam em meus dedos para cada uma apontada.
Uma menina da quadra cinco era dona de um sinal preto no rosto que a deixava ainda mais linda.
Em uma outra vez, contei para Irene que sonhei que havia caminhado de Ilhéus até a península de Maraú.
Alí por um tempo me converti nas tábuas de uma canoa, nas redes de um pescador e em seu peixe.
Espreguinçando-se ela me diz: Tu já foi corda sustentando Mastros, a cerâmica do copo preferido de um marinheiro, a pólvora na munição da resistência, o papel de uma faca de mentira. Gil, tu não deixa nunca de ser um monte de coisas nessa caótica e divertida ciranda que é a nossa vida. De que matéria são feitas as memórias, os sonhos? Quase nunca consigo lembrar sobre o meus sonhos.
Lhe digo que o brilho das estrelas é como os sonhos, viajam no espaço tempo.
Sentada num tronco, graciosa, me pergunta : --- Conseguiríamos nos converter em miragem?
--- Sim. — Lhe respondo. Fazem seis anos, conheci uma comerciante espanhola que jurava ter encontrado na África um cachorro que havia aprendido a ser búfalo. Pessoas se convertem em onças e leões, camelos, hienas, selvagens primatas, árvores frutíferas, carnívoras flores, cinzas... numa espécie de miragem de si mesmos.
--- Imaginar-se algo? — Me pergunta.
--- Mais que isso, projetar-se.
--- Ok. Que linda conexão entre corpo e mente.
--- Os pensamentos e a memória são os únicos que realmente morrem.
— Sendo assim não lembraríamos de nossas últimas viagens e Viveríamos sempre como se estivéssemos na primeira e morreríamos novamente para esquecer? Seria isso?
--- Andei muito um tempo refletindo sobre isso. Não seria bem assim. As memórias são depositadas em nós de forma química. Esse planeta teria se convertido na terra dos esquecidos se não fosse pelos mecanismos naturais da vida que se encarregaram do problema, registrando em nosso DNA as memórias traumáticas forçando a vida a especializar-se. Essa eletricidade neuronal, esse eterno pensar, essa busca pela adaptação e sobrevivência. As Memórias são convertidas em enzimas, em códigos, em ordens.
--- Faz muito sentido. Podemos acessar as nossas memórias remotas através da bioquímica.
Enquanto conversamos abro alguns cocos, tomamos a água. Comemos umas bananas, alguns biscoitos. Assistimos as andorinhas sobre o rio.
--- Lhe conto que, num bar em santa Teresa, no Rio, uma militante socialista me contou com ironia que os praticantes da Holística não produzem guerras, tão pouco conflitos, protestos. Se dedicam à metafísica, viajam na cauda de cometas através do universo. Mentalizam transformações, se atribuem poderes, administram barbitúricos ou se abstiam a eles.
> Conheci uma canadense que afirmava poder ouvir e cantar Gaia. A escutei cantar enquanto lhe acompanhava numa consulta a uma gentil francesa, numa agradável cabana em Piracanga, onde as duas há algum tempo estavam hospedadas.
Seu canto me lembrava um pouco o dos índios.
Estávamos o três ali. Eu, deitado no piso de cimento queimado da sala, observando a linda geometria que nos cobria. Elas, conversando sentadas próximo ao jardim. Fez-se silêncio, sorriram baixinho.
Deise, a francesa, lhe conta algo sobre um ninho que um pássaro havia construído dentro de sua luminária. Algo no francês eu compreendia.
Depois me explicariam satisfeitas, enquanto nos despedíamos, que por conta daqueles hóspedes mensageiros ( haviam três filhotes) o envernizamento da cabana e a viagem a Salvador iriam ter que esperar.
--- Lembra daquele profeta em Ilhéus que jurava ter sido uma garrafa de Heineken de um altar improvisado para Buda? Lembra que ele nos contou que naquela cidade existiam casos de felicidade rabugenta, tristeza que balança, descaso, abandono. Nos disse morrendo de rir que pedras do reino de Salomão eram bastante comuns por alí.
Sim, lembro, tá doida.
Sabe aquele primo meu lá de Olivença, O Juruna? Ele uma vez me contou que, entre os Cururupes, de tanto e tanto, nasce algum que consegue traduzir o Poâ das Pedras.
— Qual deles? Gil você tem tantos primos, tantas histórias.
—- O Juruna. Que te de aquele colar vermelho. Escuta essa, é boa.
As Itas traziam histórias esculpidas pelos ventos, chuvas e mãos pré-históricas.
Ele é filho de tia Alzira e Zé Chaves. Lembra que eu te contei que quando criança morei com Mainha, Mirinha e Dinha por dois anos numa aldeia perto de Una. Pois, nessa época andei muito com Juruna e Odalicio, meu outro primo. Ele devia ter uns trinta e poucos anos e andava metido nos conflitos de terra contra os fazendeiros. Entre muitas histórias fabulosas ele me contou que nosso continente é terra de Itas que assobiam e que na semana do achamento do Brasil, um português de lábio leporino instalado na Nau Espera, assobiou durante dias e noites da enseada, insistindo, insistindo até lograr trocar as primeiras mensagens.
Itaquara teria sido a responsável pelas negociações contrariando os clãs de Itaquaquecetuba e Itacaré.
As Itas traziam histórias esculpidas pelos ventos, chuvas e mãos pré-históricas.
Me contou também que, além das Itas, entre as árvores mais antigas, existem telepatas.
Os ianomâmis a chamam de Yorixiriamori.
Os povos primitivos sabiam encantá-las enquanto extraíam uma amostra de sua casca. Misturadas corretamente proporcionavam curiosas jornadas.
— Gil, você é cheio de Histórias, rs.
—Oxe, tô te dizendo. Essas pernas aqui, esses olhos e esses ouvidos tem me levado para passear por tudo quanto é lugar. Deixa eu te contar mais: Uns tempo depois, depois de caminhar dois dias pela praia de Arraial até Caraíva, em volta de uma fogueira no quinta de Natalino, uma cabocla me disse que eu encontraria na mistura de três espécies de cipós uma das conexões com Tupã.
--- Os sistemas existem, é necessário provocar as conexões. Me disse
— Acho que conheço essa história. Mas não tinha sido numa aldeia de pescadores em Alagoas?
—- Não, não… em Mangue seco foi onde tomei um chá de corneta e fiquei dois dias caminhando perdido nas dunas. Pois, voltando à Caraiva: Passados uns meses, de passando por Cumuruxatiba, reecontrei a Caboca e aceitei o convite para um Ritual.
Foi durante a noite, numa praia longe da vila, com outros participantes. Após instrução, tomei dois goles de uma espessa e escura beberagem que me ofereceram.
Caminhei por alí por perto, como me haviam instruído, observava a fogueira, o reflexo prata de Jaci sobre as palhas de um coqueiro, escutava o barulho das ondas quebrando não muito longe.
Correspondia aos viajantes ali reunidos evitar contato verbal, visual e físico com os demais. Éramos uma fauna bem distinta, haviam extrageiros, Paulista, indígenas…
Me aproximo da fogueira atraído pelo som sutil de um tambor xamânico tocado por um dos guias, sou convidado a me sentar na areia.
Tento produzir um som soprando a boca da minha garrafa de água mineral vazia.
Sou levado pela satisfação de tocá-la.
Ensaio um canto indígena.
Parecia adequado.
Ao encher novamente os pulmões para soprar minha flauta sou surpreendido por uma cristalização caleidoscópica do externo
O tempo ganha laterais e cantos.
Entre as primeiras miragens e estar deitado no tapete de palha atrás de mim cabiam horas, vidas.
Meus pensamentos estavam sendo amplificados, os minutos diluídos.
Me levanto e caminho até um pequeno bosque. Apoiado num coqueiro, fracasso sorrindo após, com toda a minha mão direita na garganta, tentar promover um vômito.
À minha volta tudo estava levemente suspenso no ar. Cambaleio em direção onde o prata da lua incide.
Me deito na grama.
Em posição fetal a observo roçar em meu rosto.
Ao tentar me equilibrar num pensamento caio num vazio.
Um não pensar, não agir.
Um deixar cair, espiral.
Projetado entre as estrelas, encontro amparo.
Por um momento acreditei ter compreendido os acordes da minha jornada.
--- Que interessante. Juro que já havia escutado uma outra versão dessa mesma história.
Não, essa eu nunca te contei. Ou contei?
*****
Naquele mesmo dia, depois de varias travessuras, peixe assado e água de coco, agora sentados sobre um coqueiro caído sobre o rio Piracanga, Gil narra para Irene mais uma de suas muitas histórias.
Irene, a vida acontece assim para mim, figuras misteriosas insistem em cruzar o meu caminho. Eu já te contei que uma vez, lá pras bandas de Arraial Dajuda, uma afegã me narrou sobre a penitência de nascer mulher no oriente médio e dos diferentes pesos da bagagem que somos levados a carregar?
Segundo ela, o mundo está cheio de crueldades, mentiras, desamores, desencontros, homens no poder e que as afegãs são regidas por esterilizante e cruéis idéias religiosas de conduta.
Com os dentes cerrados me contou que, aos 16 anos, fugiu da família e do país atravessando a fronteira com o Paquistão, na companhia de um negociante francês de ópio e heroína que havia conhecido numa feira de Cabul. Isso lá pros inícios dos anos 60.
Ele a levaria para Paris e tornaria-se seu segundo marido.
Seu Primeiro amor.
Com sua Land rover voltariam outras vezes àqueles mercados em busca de tapetes e artigos do precioso artesanato oriental.
Me contou que em Paris, os estudantes haviam vencido mas os canalhas seguiam existindo e com eles, toda moral mofada.
Me conta de punhos fechados das muitas brigas que aconteciam em casa, da violência de Pierre e que este havia fugido para não ser preso levando com ele todo o dinheiro e jóias que possuíam.
Decidida a seguir em frente, comprou uma passagem e embarcou sozinha em direção a Nova York, levando consigo como bagagem onze baús carregados de artesanato.
Foram treze dias sobre o mar.
Sua beleza e antipatia ganhou notoriedade.
Os homens eram obrigados a contentar-se por não terem recebido um chute na canela ou um palavrão dito em francês raivoso.
Ali conheceria uma turca também rebelde que lhe daria de presente sua primeira calça jeans.
Escandalizavam de belas e ousadas.
Trazia no busto um xale esmeralda de seda afegã sobre uma delicada blusa de renda e turquesas pedras em seus anéis e pulseiras de prata.
Seus olhos e cabelos negros como a noite.
Se estabeleceria por onze anos em Nova York e a California para onde sempre retornava das suas muitas viagens aos mercados do norte da África e do Oriente médio.
Todos queriam seus artigos.
Fez fortuna, inimigos e amantes.
Me contou que havia sido obrigada pela família a casar-se aos 13 anos de idade com um nojento negociante 40 anos mais velho.
Por isso havia aprendido a morder e a gritar feito louca.
Sobre a turca: A reencontraria por acaso em Roma, numa vernissage, seis anos depois.
Cinquenta anos se passaram, quinze deles vivendo na Bahia, onde flores de eugênia e flamboyant cobrem o chão da rua de terra que leva até o seu chalé.
Me conta acreditar que o mal é bom, e o bem cruel.
Que com alguns homens foi feliz, com outros foi mulher.
Que tinha muito ódio no coração, que havia dado muito amor e espalhado muito prazer e muita dor.
( Gil e Irene mergulham no rio e a tarde assim vai caindo, a maré subindo, e o amor entre os dois ganha um sabor da mistura do encontro entre rio e mar. Dalí dois dias iriam juntar as coisas, despedirem-se da Oca que tão bem o acolheram e seguiriam em direção a Itaipú de fora, onde um casal de amigos os aguardavam. A vida adquiria uma tonalidade mágica na Costa do dendê.
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Considerações
Fui jogado para fora de uma curva em alta velocidade pela poesia de Joao Cabral de Melo Neto, Nestor Parra, pelo cinema de Glauber Rocha e Tarkovsky, e pela filosofia de feira, rodoviária e ponto de ônibus dos lugares por onde passei. Por que eu sou assim, eu passo um tempo.
Presta atenção nessa do Nicanor.
"O homem imaginário que vivia numa mansão imaginária.
Rodeado por árvores imaginárias, a margem de um rio imaginário.
Todas as tardes imaginárias, sobre as escadas imaginárias, se debruça sobre a varanda imaginária.
Volta a sentir essa mesma dor, esse mesmo prazer imaginário.
E volta a palpitar o coração do homem imaginário.
---- Nestor Parra, el hombre imaginário ---
Rodeado por árvores imaginárias, a margem de um rio imaginário.
Dos muros que são imaginários, pendem antigos quadros imaginários, irreparáveis rachaduras imaginárias, que representam feitos imaginários em lugares e tempos imaginários.
Todas as tardes imaginárias, sobre as escadas imaginárias, se debruça sobre a varanda imaginária.
Olhando a paisagem imaginária que consiste num vale imaginário, entoando canções imaginárias à morte do sol imaginário e as noites de lua imaginária.
Sonha com a mulher imaginária, que o brindou com o amor imaginário.
Volta a sentir essa mesma dor, esse mesmo prazer imaginário.
E volta a palpitar o coração do homem imaginário.
---- Nestor Parra, el hombre imaginário ---
Tínhamos em comum mais do que ter roubado para alimentar nossas amadas.
Me acusam de idealista, romântico.
De não ter acumulado riquezas.
Sou tributário da minha imaginação, das historias por viver.
Sorrindo ou sisudo, respondo sempre que me alegra viver.
Sou instruído em casos, rotas, portos, existências marginais e canto de pedras.
Quando criança éramos orientados a comer formigas de açúcar para apurar nossas vistas e inteligência.
Ao nos machucarmos pisando num prego, deixávamos-lo por dias enfiado numa cebola.
Um compositor carioca sugeriu a existência de uma espécie de bazar onde os sonhos extraviados iam parar.
Me ví na avenida em seu samba popular, em suas mulheres, vagabundos e operários. Nas suburbanas e atrevidas caravanas que nos domingos e feriados dirigiam-se às praias da zona sul do Rio de Janeiro.
Sol. A culpa deve ser do Sol, das Noites do norte.
Das Rezas que zeram, dos espelhos no carnaval.
Repito: Minha reza é movimento. E você Irene, é feito uma tarde de verão.
Tenho escutado sobre as árvores na Costa Rica, Corais em Fernando de Noronha, pesos nas bancas dos mercados de Manaus, Salvador, São Paulo.
Que eu nunca seja ouro, nem prata, nem pedras ornamentais.
Há quem afirme existir vantagens em ser animais domésticos, flores com perfume e plantas de jardim.
Em nosso caso, meu e de Irene, largamos fétidos aromas, e nas cidades, seguimos brotando em marquises e em rachaduras.
Uma velha Alquimista de Diamantina nos contou que o ódio e a inveja se convertem nos elementos da família dos actinídeos da tabela periódica e que as tristezas dos escravos deste mundo haviam se convertido no lamento dos pássaros.
Me contou também que A felicidade é feita de metal
Segundo ela, remorso e arrependimento são absorvidos por árvores boa para canoas e instrumentos musicais.
Há quem acredite que Arruda tira ou afasta mal olhado.
O reino vegetal sintetiza sentimentos e proporciona memórias. Em alguns lares Nietzsche havia convertido-se em Comigo Ninguém Pode e em espada de Sao Jorge.
--- Alucinações não são miragens. --- Me diz Irene
Lhe respondo que paixão, poder, medo e a fome são famosos por provocar alucinações.
Há quem afirme que a religião é a maior delas e que o eterno retorno nos cansaria se guardássemos todas as memórias.
"Bom é nascer de novo!" --- Diria alguém marcado pelas paixões.
"Bom seria nascer ao seu lado" --- Diria alguém que ama.
Me parece que como matéria seguimos faz tempo no mesmo planeta.
--- Num Sonho uma vez me converti em gás e alcançei as camadas exteriores da atmosfera. ( Muitas vezes tenho sonhos aventurescos onde me perco de Irene)
Lá chegando me especializei e me converti em outro, viajando além.
--- Quantas histórias novas nâo escutaríamos na imensidão do universo!
Na volta me converti em luz ao colidir com as camadas que envolvem e protegem a Terra.
Alguém do interior de uma oca instalada numa praia, a 3km do rio Piracanga, me viu cruzar brilhante o céu da noite de 14 de dezembro de 2020.
Distintas órbitas.
Teria que aguardar uma mais certeira que me levasse de volta a Irene. Vivo sonhando com Mata, as estrelas e com o fundo do mar.
Lí que um poeta no pantanal havia aprendido com um sapo a se converter em Azul. Lendo-o me aprimorei, alcançando ser verde alaranjado, amarelo cinzento, vermelho sangue, azul de saber, o prata da luz da lua.
Ao buscar tentar me esquecer tornei-me opaco e passei a combinar com as cores terra.
Escrevo esta linha enquanto observo o movimento sutil de uma cobra cipó sobre as folhas e galhos secos próximos a cerca.
Trocamos olhares, nos observamos calados.
Me hipnotiza.
A vejo escorrer camuflada de cipó.
Escrevo enquanto ela ondula em seu passeio, sem desperdícios, como pretendo alcançar ser minha escrita.
Tenho olhos de ouvir, coração de escutar.
Não me canso do uníssono da vida, do frêmito dos pássaros a nos observar, das histórias de Jorge amado e Dorival.
Uma vez lá em Taipus de Fora, caminhando em direção à praia, identifico pousado num fio elétrico, um Cardeal. Tomamos uns segundos nos observando antes dele seguir cantando.
No caminho até a praia, antes de cruzar uma pequena ponte de madeira, cruzo com quatro crianças negras pescando Calambau num igarapé. Sorridentes, me tratando de Tio, me contam que, assobiando, pode-se conversar com pássaros, jibóias e aratus.
Conceição Evaristo afirma que: " Houve um trabalho, uma nomeação da palavra "Negro". Para esvaziar o sentido negativo dessa palavra foi criada uma semântica de positividade".
Sobre viajar: meu avô uma vez me disse que de carro era muito rápido e que se perdia muito dos detalhes da paisagem.
Me tornei andarilho, praticante da espontaneidade, coletor de vivências, orquestrador de palavras e arranjador de lugares.
Nâo faz muito tempo, as descobertas de Sambaquis atrasaram as obras de um enorme shopping center em Cabo Frio, na região dos lagos.
Por aê circulou uma história que, por conta do aniversario da cidade, Convidada pelo proprietário de um cinema com o mesmo nome, Brigitte Bardot, afirmou não se recordar de Armação dos Búzios.
Escutei de um bêbado na Rua das Pedras que cartório e imobiliárias eram raízes do mesmo mal.
"O que seriam das mansões com vista para o mar, das áreas de preservação natural do estado, sem as habilidades de um (n)otário?
Para onde foram todos os pescadores com suas tradicionais casas na praia? Suas redes, violões, canoas, jangadas, barcos, ligeiras crianças...
Para onde foram todos os bichos das matas convertidas em monocultivo, pastos e cidades?" --- Me perguntou enquanto sorvia o que sobrava de uma garrafa de corote.
Me contou indignado que, com a maré cheia, os muros das casas impossibilitam caminhar pelas praias da Tartaruga e do Canto".
Que desgraça! E assim saiu andando, praguejando e apontando para as casas. Que desgraça...
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Certa vez, ao caminhar numa praia deserta, na qual me encontrava há dias retirado, encontrei embolada pelas ondas, uma pesada corda para atracar navios.
A analisei imaginando sua história.
Refleti sobre as consequências da sua permanência na areia.
Assumí a responsabilidade de desatá-la e removê-la.
Dei início a uma intrincada missão de identificar pontas que me permitissem resolver o primeiro dos muitos nós.
Levado pelas reflexões me transportei em navios, trens.
Combati egoísmo, confrontei emoções.
Com paciência e determinação, decifrei códigos, confrontei métodos, estabeleçi dinâmicas, exercitei meu físico e intelecto.
Por momentos me sinti um estivador, em outros Pedro Bala, Wolf Larsen, Passepartout, Osmundo.
Horas depois, Concluída a missão, com muito esforço a transportei até um ponto da praia onde lhe podessem devolver utilidade
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Uma sofisticada ponte foi construída entre a praia da avenida e o bairro de Nova Brasília, em Ilhéus.
De lá de cima costumo avistar golfinhos brincando na barra do rio.
Na Amazônia, os habitantes das palafitas mergulham e pescam somente com as mãos.
Aí também é comum se crescer brincando com os botos.
--- Os mitos indígenas são bastante tributários também de sapos e serpentes. -- Me conta sempre Irene.
Me diz tambem que em Búzios havia esculpido acidentalmente um Grifo na areia da praia, e no dia seguinte uma velha índia.
--- Jung construiu seu totem. --- Lhe digo.
Os barqueiros do São Francisco instalavam Carrancas na proa de suas embarcações.
Macunaíma escondeu seu Muiraquitã nas margens do Uraricoera.
Joseph Campbell nos estende uma mão e Cammus a outra.
Temos que visitar o rico material recolhido por Mário de Andrade durante sua grande expedição.
Entre os amigos adorava dizer que me apaixonei por Pagú e Anita Malfati antes de Oswald.
Irene sempre diz que Gostaria de ter frequentado as rodas no quintal de Tia Ciata, os encontros na casa de Laurinda Lobo, Isadora Duncan e no apartamento de Nara Leão. Eu tambem.
Continua.



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